A Cabra, a Sogra e o Dexter.

Tédio, morte e zoofilia juntos num mesmo sítio.

O Formigueiro Invisível.

“Pare”, “Siga”, “Ande aqui”, “Dirija ali”.

O Mundo de Verônica

Uma entrevista do Pedro Bial no meio de uma revista Playboy.

Quando você morrer

O que você quer ser quando morrer?

Psicotuitoanalise #1 - Fanatismo

O novo método twitteriano de psicanálise avançada freudiana cerebelística anonencefálica.

sexta-feira, outubro 24, 2014

Cidade Só



Cidade imensa
Geradora de ilusão

Cidade intensa
Fabricante de solidão

Cidade densa
Esmagadora de coração

Cidade que compensa
Quem anda na contra mão

Um quarto vira um quadro
A sala um monumento
O corredor uma tortura
Paralisado um dia inteiro

À noite resfriado
No banho sofrimento
As lágrimas se misturam
Com a água do chuveiro

Não dá pra fugir
Não dá pra gritar
Lá fora tudo cinza
Lá dentro tudo está
De graça só a angústia
E a fé no que virá

Sem moeda no bolso
Pra comprar um sorriso
Pra comprar uma passagem
Da consolação ao paraíso

Sem respostas
Sem apostas
Sem reais

A semana é um carrossel
Que se gira com o pé
O que vale é seu vil papel
Nenhum pouco quem você é

Ora quem é você?
Pra me chamar aqui
Se nada acontece

Sou aquele que sei
Que um dia vou conseguir
Ser aquilo que te apetece

Sou aquele que doma
A solidão tagarela
Que a pega no colo
Que dança com ela

Isolado por fora
Dividido por dentro
Se no coração aflora
Um suave tormento

O de baixo desce bem
O de cima sobe apressado
Enquanto o equilíbrio vem
Dos que ficam ao teu lado

Um prisma que te transforma
Um livro que te transporta
Rodeado pela escura solidão

Nove fotos sozinho 
Com o devido carinho
No centro escapa por cada vão

Cidade imensa
Que causou e curou 
Minha doença
Que ignorou e notou
Minha presença

Que me deu motivos
Pra não escapar de mim
Que agora é sala de estar
Meu escritório e jardim

****       ****
Abrigo de deusa
De fada e surpresa
Minha fortaleza
Meu coração
Minha 
paz

Cidade imensa
Selva de egoísmo e aço
Que eu conquistei

Cidade intensa
Hoje só um pedaço
Do gigante em que acordei

quarta-feira, abril 23, 2014

Vai Antônio

Vai Antônio
Sai dessa cama
Lava esse rosto
Faz essa barba
Engole o desgosto
Segura essa barra

Pega o metrô
Cuidado com o vão
Entre o trem
E a plataforma
Não olha pro chão
Não esbarra em ninguém
Não anda dessa forma

Vai Antônio 
Levanta a cabeça
Corrige a postura
Penteia o cabelo 
Esconde a costura
Vai cozinhar 
Se alimentar 
pra se sustentar 
Pra poder trabalhar
E se sustentar

Caminha e olha
Pra todos os lados
Pode se machucar
Podem lhe machucar
Carrega seus pulmões
Precisa respirar
Precisa continuar
Trabalhar pra se sustentar
Pra poder trabalhar
E se sustentar

Vai Antônio
Não perde o busão
Paga a sua conta
Cuidado com o prazo
Leva um casaco
Estuda pra prova
Agradece o moço
Pede bença pra vó
Não come só miojo

Planta uma árvore
Escreve um livro
Faz uma pós
Paga o cartão
Arruma uma namorada
Usa camisinha 
Come a salada
Não senta no chão

Não mata aula
Não faz cara feia

Não fuma maconha
Não vai se atrasar
Não mia o rolê
Não chuta a macumba
Não pega DP
Não fica sem trabalhar

Caminha Antônio
De cabeça erguida
De postura corrigida
De forma decidida 
E vai

Vai Antônio
E se der tempo
Vive
Ama
E sorri

sexta-feira, março 28, 2014

Entre Linhas

Pudesse eu te transformar num livro
Ou numa obra escrita qualquer
Pra te carregar sempre comigo
E poder ler quando eu quiser

Quem sabe um livro de poemas
Com belos versos por toda parte
Transformando todos os problemas
Em inspirações pra obra de arte

Ou talvez um livro artístico
Feito com toda delicadeza
Com seu conteúdo característico
E que exiba toda sua beleza

Te leria antes de dormir
E no caminho pra faculdade
Te leria quando quisesse sorrir
Ou quando eu sentisse saudade

Grifaria as melhores frases
Decoraria os melhores trechos
Rabiscaria as piores fases
Reescreveria os maiores desejos

Te deixaria na minha cabeceira
Ou até embaixo do travesseiro
Compraria sua coleção inteira
Mesmo se não sobrasse dinheiro

Se você fosse um livro
Teria tanta imponência
Que não ficaria bem numa estante

Você seria como um eco
Que prolonga a existência
Do que só existiria por um instante

Mas se quer saber, não faço questão
Pois te leio de forma qualquer

A cada entrelinha de cada expressão
Te leio livro, te leio mulher

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Nebraska - Resenha

Fui em mais uma cabine de imprensa da Sony Pictures pelo Papo de Blogueiro, com o link do post original aqui, e mais um candidato ao Oscar de Melhor Filme em 2014. Achei que ficou muito curta essa introdução mas não sei o que escrever aqui pra encher linguiça, então essa vai acabar sendo a própria encheção. Obrigado.
critica-filme-Nebraska
 
Ficha Técnica
Gênero: Drama – Comédia
Direção: Alexander Payne
Roteiro: Bob Nelson
Elenco: Will Forte, Bruce Dern, June Squibb, Bob Odenkirk e Stacy Keach

Resgate ao passado, melancolia e ingenuidade, estes foram os primeiros sentimentos que tive com o início de Nebraska. Dirigido por Alexander Payne, que já está acostumado a retratar a vida de homens de meia ou terceira idade (sendo este o primeiro longa com roteiro sem sua assinatura), o filme inicia-se com David Grant (Will Forte) trabalhando numa loja de eletrônicos, e logo percebemos que sua vida não é das mais felizes, muito menos emocionante. Separado há pouco tempo de sua namorada e passando a viver sozinho, David leva uma vida de mesmice e sem grandes ambições. Enquanto isso, seu pai Woody Grant (Bruce Dern), um velho alcoólatra e nem sempre lúcido, começa uma jornada em busca do seu US$ 1 milhão, que acredita ter ganho através de um folheto de assinatura de uma revista. Com a recusa de todos os familiares em ajudá-lo, dizendo se tratar de um engano, Woody decide então partir sozinho (e andando) de Montana até Nebraska em busca do prêmio.

Além das expressões de infelicidade recorrente nos personagens, o fato do filme ser filmado todo em preto e branco (e sua bela fotografia) deixa ainda mais presente o sentimento de melancolia. Quanto mais conhecemos sobre a vida de cada um, mais sentimos suas mágoas e ressentimentos de uns com os outros. June Squibb, que interpreta brilhantemente Kate Grant, a esposa de Woody, demonstra uma enorme impaciência com o marido, já estando esgotada com suas constantes “fugas” em busca do prêmio. A presença de Ross Grant (Bob Odenkirk), filho mais velho, com a intenção de aconselhar o pai, deixa claro a falta de afeto que existe dentro da família.

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Cansado de ter de buscar o pai tantas vezes na beira da estrada, David sucumbe à ilusão de Woody e decide enfim levá-lo para Nebraska, o que irrita principalmente sua mãe. Segundo ela, David era “igualzinho ao pai“, o que podia não ser tão real, mas de fato, ele era o mais próximo e o único capaz de ter tomado tal atitude. E com a viagem inicia-se a jornada entre pai e filho, que vai se transformando até o final do filme.
Outro fato que se transforma no decorrer do filme é a tal motivação de Woody em relação ao prêmio de um milhão de dólares. Quando perguntado sobre o que pretendia fazer quando conseguisse o prêmio, respondia querer comprar uma nova caminhonete e um compressor, mas conforme o avanço da trama percebemos que não se trata apenas disso, e que por trás do desejo de ir atrás do prêmio se escondia um grande significado.

Apesar de carregado de melancolia, Alexander Payne consegue novamente encaixar muito bem o humor, utilizando-se principalmente da característica de introspecção dos seus personagens, alguns deles bem caricatos até, como no caso dos dois primos de David, mas que não tiram a imersão do filme. Com a chegada de Ross e Kate no vilarejo onde se encontravam, e a reunião entre diversos familiares, entramos mais fundo na história dos protagonistas e passamos a entender melhor sobre o passado de cada um, principalmente o de Woody.
Entre o interesse e desinteresse de seus familiares em relação ao tal prêmio, os quatro da família Grant vão se aproximando cada vez mais, e até a sempre irritada e impaciente Kate passa a nos mostrar algo mais do que vinha mostrando até então.

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Bruce Dern e June Squibb sem dúvidas são os dois destaques do filme, e ambos se distanciam da forma unidimensional, pois há momentos em que realizam atos nobres e bondosos, enquanto em outros cometem, ou confessam ter cometidos, atos não tão nobres assim. Já a Will Forte restou atuar de forma sempre pacata e impessoal, o que retrata bem a desmotivação de seu personagem com a vida. Mas sua atuação foi suficiente por exemplo para que em seus momentos com Ross, ao mesmo tempo em que demonstrava um genuíno apreço pelo sucesso profissional do seu irmão mais velho, demonstrava também certa inveja com a diferença de vida que os dois levavam. O único momento de explosão de David (não tão convincente assim) prova de vez uma verdadeira preocupação com seu pai, e finalmente no desfecho do filme entendemos, ou então sentimos, a mensagem que Nebraska nos deixa.

O tempo é inexorável. Durante a vida cometemos diversos erros e acertos, que traçam o rumo de nossas vidas e nos geram felicidades, tristezas e/ou arrependimentos. Mas mesmo que não tenhamos uma vida plena de satisfações, jamais é tarde pra vivermos bons momentos, nos aproximarmos de pessoas que deveríamos ser mais próximos, realizar sonhos ainda não realizados e até tentarmos corrigir alguns erros do passado, seja da forma que for. Nunca é tarde, enquanto estivermos vivos podemos ir atrás do objetivo que desejamos, nem que precisemos andar a pé de um estado ao outro. E independente de onde essa jornada nos leve, a jornada em si muitas vezes já terá feito valer a pena.

Enquanto a ingenuidade que vemos em Woody pode ser vista por muitos como defeito e com escárnio, pode também na verdade ser visto como um grande motivador pra se ir atrás de algo, sendo este algo palpável ou não. Real ou imaginário. Independente do que seja, é algo que nos empurra, é um combustível que nos ajuda a seguir em frente, estando nós velhos ou jovens. Estando a vida nos oferecendo ou não este algo em seu cardápio.
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Kate Grant: ” – Por que você insiste em pedir rosbife sendo que nem está no cardápio?”
Woody Grant: ” – Porque eu gosto de rosbife.”

segunda-feira, janeiro 06, 2014

Ao Infinito... e Amém.

Fazia bastante frio, mas Caio suava. Todos os dias quando ia pro colégio era a mesma coisa. Não importava o frio que fizesse, após uns quinze minutos pedalando ele já começava a sentir calor. Ele não conseguia pedalar vagarosamente, observando as paisagens, ou seja lá o que tivesse pra ver. Ele tinha que pedalar rápido. Não como um desesperado, mas rápido.
Naquele dia ele estava ouvindo rádio AM, pois seu mp3 só tinha 128mb e cabia cerca de 30 músicas, das quais ele já estava enjoado e mais uma vez tinha esquecido de trocá-las. Optou então pela rádio, pois preferia ouvir as notícias do dia do que as músicas que tocavam nas estações FM. Ouvia nem 10% do que falavam no rádio pois na maior parte do tempo sua cabeça voava. Sobre todas as coisas e em todas as direções. Ele só se lembrava de que estava ouvindo a rádio quando tocava um jingle do qual ele não gostava muito, que dizia "vambora, vambora, olha a hora, vambora!". Ele sentia um certo tipo de nervoso quando ouvia aquilo, mas não sabia explicar exatamente qual. Era diferente. É normal passar a desgostar de músicas ouvidas de manhã por associá-las com o fato de ter que sair da cama, mas aquela o irritava de um outro modo, ele só não sabia ainda qual. Talvez tivesse a ver com o fato daquela música ser associada ao pai, de quando ele se arrumava de manhã antes de ir trabalhar e ouvia a rádio no banheiro, mas agora fazia parte de sua vida também. Ele ainda não era um adulto, estava longe disso, mas estava agora ouvindo-a quase todas as manhãs.

Quando a rádio fazia um intervalo desse jingle e só ficava dando notícias, Caio aproveitava pra pensar. Ele gostava bastante de pensar sobre tudo, ainda mais sobre as coisas "difíceis de se pensar". Ao parar num semáforo, ele sentiu um pingo caindo logo abaixo do seu olho direito, na maçã do rosto. Sempre que isso acontecia ele ficava na dúvida se era gota de chuva ou xixi de passarinho, pois esta segunda ainda nunca havia lhe acontecido e ele sabia que sua hora ia chegar. Quando olhou pro alto viu um emaranhado de fios do poste, e lá mais no alto ainda, o céu. Ele queria poder voltar a cena em câmera lenta e ver o pingo subindo, voltando de onde veio, pra ele descobrir de fato sua origem. Seria um orvalho do fio, ou estava começando a chover? Enquanto imaginava a gota voltando no tempo e subindo, notou que alguém do seu lado atravessou a rua, e percebeu que o sinal já tinha aberto. Deixou então de olhar pro alto e seguiu de volta seu caminho. Resolveu que naquele dia pensaria sobre a imensidão do céu, algo que ele via todos os dias, que parecia tão perto, mas na verdade é tão longe. Que fazia parte da sua vida mas ao mesmo tempo estava tão distante. Que parecia o acolher mas ao mesmo tempo o desprezar. Podia ser bonito, mas também assustador. Tinha várias faces, e além de tudo era infinito.

Era uma loucura pra ele entender o fato de algo ser infinito. Era uma das coisas que davam "bug no cérebro". Tentar visualizar o conceito de infinito em sua mente não era possível. Da mesma forma que não dava pra imaginar de onde veio o Universo. Pra ele, o cérebro não é capaz sequer de conseguir imaginar a inexistência das coisas em si. Não se consegue imaginar o vazio.
Como imaginar se a vida não existisse? Não dá! De onde veio a vida? De Deus? Mas e Deus, de onde veio? De outro Deus? E este outro veio de outro, que veio de outro? Essa geração de Deuses também é infinita? Será que Deus é justamente isso, tudo que é infinito? A cabeça dele dava um nó. E ele até que gostava.
Pra ele as questões de Universo e Deus eram impossíveis de se refletir. Talvez seja por isso que essas coisas iniciem com letras maiúsculas, pois são coisas impossíveis de se pensar e chegar a uma conclusão de como funcionam. Assim como as pessoas. 
De onde viemos e pra onde vamos? Essa era uma questão que ele já havia desistido faz um tempo. Por ele, "vida" deveria iniciar com maiúscula também, assim como "morte". Será que quando morrermos entenderemos afinal o que é o infinito? Ou quem sabe faremos parte dele? Ou será que já somos, e até viemos dele? Ou será que aquele papo de paraíso e inferno existe mesmo? Maldito infinito. Maldito Deus. 

Ao passar por uma praça ele viu uma mulher andando acompanhada de uma criança, carregando papéis e o que se parecia com uma bíblia. Deviam ser testemunhas de jeová ou algo assim. Ele achava aquele tipo de pessoa realmente irritantes. Pra ele, parece que elas querem te obrigar a entrar na religião delas. Que desejam empurrar o Deus dela pra dentro de sua casa pra que seja o seu também. Por quê? Por que insistem em jogar o maldito Deus delas na cara dos outros? Vem com aquele papo de compartilhar a "palavra de deus", mas pra quê? Valeria muito mais a pena se ao invés de distribuírem palavras distribuíssem ações. 
Para Caio, as pessoas acreditariam mais em Deus ao ver coisas belas e positivas, ao invés de baterem com a bíblia na porta de suas casas tentando fazer com que engulam o que lá esteja escrito. Ele via muita discórdia e briga por causa de religião, e isso não fazia o menor sentido. Pra ele, religião era coisa do homem, e não de Deus. E o homem, como todos sabemos, é capaz de fazer tanto bem quanto mal. Se todos afirmavam que "Deus é amor", pra que todo esse ódio envolvido então? Foi então que ele chegou a uma conclusão sobre Deus. Não sobre o Deus de todos, mas o seu próprio. Pra ele, deus se encontrava nas coisas que transmitiam o "bem". Deus estava nas atitudes, e não lá no alto nos observando e anotando quantas bolinhas do terço rezamos. Agora então, deus não precisava mais de letra maiúscula.

Enquanto pedalava, Caio buscava então a presença desse seu deus, e ele o via por todos os lados. Devia ser verdade então aquilo de que ele é onipresente. Deus estava no sorriso dos pais que saíam do hospital carregando seu filho recém-nascido. Deus estava no beijo no rosto que a criança deu em sua mãe antes de entrar na escola. Estava na satisfação de um garoto ficando com uma menina, atrás do muro, do outro lado do colégio. Estava nas mãos dadas de um casal de velhinhos,os dois já enrugados, porém ainda juntos e aproveitando a companhia um do outro. No alívio daquele cachorro ao encontrar finalmente um lugar pra fazer cocô. No prazer daquela mulher ao correr e suar enquanto ouvia suas músicas. Deus estava por todos os lados.
Ele sentia deus ao se lembrar que naquele dia tinha novo episódio de Lost, e que à noite, quando chegasse em casa, poderia assisti-lo comendo fandangos. Sentia deus ao achar uma nota de dois reais no seu bolso, sabe-se lá desde quando ela estava ali. Sentia deus quando seu pai lhe dava um mp3 de 128mb de aniversário, enquanto todos tinham de 1gb, mas sabia que o pai nem sabia dessas coisas e comprou o que pôde, e o que o filho desejava. Sentia quando sua mãe demonstrava orgulho de quem ele era. Quando marcava um gol. Quando seu time marcava um gol. Quando fazia um gol contra, mas que tinha sido muito engraçado. Na masturbação discreta durante o banho. Ao roubar comida da geladeira na madrugada. Sentia deus quando se sentia livre, e que teria todo o futuro pela frente, podendo conquistar tudo que desejasse. Ele sentia deus na satisfação de ter concluído enfim o que seria, pra ele, deus.

E sentindo deus ele continuou a pedalar, perdido nos seus mais novos pensamentos. Até que veio um "vambora, vambora, olha a hora, vambora!" e cortou sua linha de raciocínio. Deus não está nesse jingle de jeito nenhum. Resolveu desligar o mp3 pra poupar bateria. Olhou pro lado esquerdo antes de atravessar a avenida e com uma das mãos tirou o aparelho do bolso. Deu três pedaladas rápidas e então ouviu um som tão desagradável quanto o jingle. Quando olhou pra sua direita viu um ônibus, que parecia estar maior do que o normal, talvez por já estar tão perto, e tão rápido. O som vinha da buzina estridente, que de nada adiantava, já não tinha mais o que fazer. Naquele momento, Caio não chegou a ver um filme de sua vida, mas se sua vida fosse um filme, aquilo teria sido apenas um frame. Foi muito rápido. Viu um flash do ônibus, e logo já não via mais. Sentiu como se estivesse voando, mas ao mesmo tempo paralisado. Não conseguia organizar seus pensamentos, só o que conseguia era ver e sentir. Ele via o céu, e sentia o nada. Foi a primeira vez que teve essa ausência de sentimentos. Nem paz nem agonia. Nem dor nem felicidade. E então, no último resquício de qualquer coisa, percebeu que sentia-se, assim como o céu que o encarava lá do alto... infinito. Sentiu também uma gota se esparramar na maçã direita do rosto, mas não tinha como saber se era a chuva que caíra de vez, se era lágrima, ou finalmente xixi de passarinho. Sentia que agora ele teria a resposta pras coisas maiúsculas, e que talvez elas nem fossem tão importantes assim. Sentiu que ainda não era hora de descobrí-las. Sentiu seu deus. "Vambora, vambora, olha a hora!". E então acabou. Olhou uma última vez pro céu. Agora eram todos apenas um: Ele, deus, e o infinito.

sábado, dezembro 14, 2013

A Vida é (uma) Foda

A vida é uma foda
Uma orgia de egoístas
Onde se foder é moda
E o orgasmo é uma conquista

Todo mundo só quer receber
Sempre atrás de uma fodinha
Caminhando em busca de prazer
Não importando por onde caminham

E assim todos seguem
Sem nem olhar por onde pisam
Falsa bondade só se consegue
Quando de você eles precisam

A vida é foda

Goza na tua cara
Sem informar ou pedir
E sua maior tara
É te fazer engolir

O mundo é foda

E ele gira, roda
Passa por cima
Te esmaga e
Te desvirgina

Não tem lugar pra cabaço
Não tem lugar pra frescura
Não liga se sua vida ta fácil
Ou se sua vida ta dura

Se aceitar você não é capaz
Ele te prende e te fode por trás
Não adianta buscar abrigo
Quem tem cu, já corre perigo

Entre as quatro paredes da vida
Não se pode ficar parado
Ou você goza com ela
Ou por ela é estuprado

sábado, novembro 02, 2013

Mendigo.

Não tenho voz, não tenho nome, não tenho família. Não sei de nada, não leio, não assisto, não como nem bebo direito. Não tenho casa, não tenho vida. Mas estou vivo, então o que é vida afinal?
Seja o que for eu não terei, pois essa é minha função: não ter nada que exista por aí. Isso faz com que eu duvide às vezes de que eu próprio existo. Mas sei que sim. Posso não existir pra você, pra ele, pra aquela senhora que passa nessa calçada todos os dias, ou pra aquele garçom ali da frente, mas pra mim, eu existo. Eu sinto, eu respiro, choro, grito. Talvez vocês não entendam, talvez nem percebam que esse pedaço de qualquer coisa aqui no canto é uma pessoa. Deve ser realmente complicado perceber certas coisas aí de cima. Mas eu, aqui embaixo, vejo tudo.

Vejo vocês caminhando, se arrumando, trabalhando. Vocês acordam nas suas belas casas, tomam um banho, escovam os dentes, arrumam o cabelo, as roupas, a pele, o cheiro. Saem de casa e vão trabalhar. Trabalham, fazem o que uma outra pessoa maior que você manda, mesmo gostando ou não. Cada um de vocês faz isso porque precisa fazer, porque não tem escolha, porque se não fizer não vai poder acordar novamente no outro dia, se arrumar, ir trabalhar, cumprir ordens, dormir, acordar, ir trabalhar, cumprir ordens. Pois se não fizer, não terá como se sustentar, não terá onde morar. Assim como eu.
Isso me torna inferior? Talvez, mas o chão que me sustenta é o mesmo de vocês.

Vocês param pra pensar se eu vim parar aqui porque eu quero? Porque gosto? Porque sou preguiçoso? Não "consigo me integrar à sociedade"? Se eu perdi tudo? Se eu tive família? Se eu sou apenas um bêbado escroto filho da puta?
Eu posso ser cada uma ou nenhuma dessas coisas, mas eu posso fazer algo que vocês não são capazes. Parar pra pensar. Vocês já fizeram isso? Já pararam alguma vez? Ah, é verdade, estão atrasados pro trabalho, desculpe atrapalhar. Mas e pensar, já pensaram? Já pensaram em algo que não gire em volta dos seus próprios umbigos? Em algo que não envolva pedaços de papeis coloridos com onças e peixes desenhados, algo que não envolva seu status, seu ego, que não envolva a buceta de cada dia que tanto almeja? Já pensaram em parar um pouco pra pensar?
São as coisas que mais faço. Sempre parado, pensando. E no que eu penso? Em tudo que me convém pensar. Mas principalmente sobre vocês. Às vezes acho que sou o próprio tempo, pois fico aqui parado, constante, imutável, invisível, mas sempre presente. E enquanto isso vocês passam, caminham, rumo aos seus importantíssimos objetivos. Eu penso que, pra mim, vocês são como essa água que escorre no meio fio, sabem? Ela sai de dentro da casa e desce a rua. Desce, desce. Não sabe o porquê nem pra quê, mas desce. Se tem uma curva, ela contorna, segue o caminho moldado pra ela e vira. E desce. A cada quarteirão deixa seu rastro, e recebe mais sujeira. E desce. Até chegar no bueiro e se encontrar com todo o resto de água suja que desceu pelas outras ruas da cidade. São como vocês.

Eu posso não tomar banho, não escovar os dentes, não passar perfume, mas vocês são tão sujos quanto eu. Ninguém é melhor que ninguém. Eu deito, sim, todos os dias nessa rua, com meu cobertor imundo e cheiro de bosta, mas deito vazio. Sem ódio, sem amor, sem dívida nem rancor. Apenas vazio. E vocês quando se deitam, como é? Não pergunto sobre o lençol de seda ou travesseiro de penas de ganso, mas no que vocês pensam? Dormem tranquilos? Sabem sequer pelo quê estão vivendo? Ou apenas acordam, caminham, trabalham, e se vendem pra poderem depois comprar pelo menos 1% de todo o tempo que viveu? Como é viver 99 dias dando dinheiro pros outros pra que no centésimo e último dia tenha um pouco pra você?
Eu não faço ideia de como seja, afinal fico aqui, parado, pensando. Não tenho história nem nome. Não tenho passado, presente nem futuro. Talvez eu seja mesmo o tempo.

Mas se querem saber de uma coisa, não odeio nenhum de vocês. Se eu tivesse aí em cima, eu também fingiria não ver ninguém daqui. Não jogaria moeda nem comida. O ser humano é assim mesmo, e seja ele imundo ou empresário, favelado ou milionário, ainda assim é um ser humano. Sofrem dos mesmos problemas, tem as mesmas incertezas. Eu por exemplo não sei o que vai acontecer comigo. Não sei pelo quê vivo, o que eu quero. Me sinto distante demais de qualquer sonho que eu tenha, e às vezes esqueço até o que é sonhar, às vezes quero morrer. E tudo isso não é coisa minha, e sim de todo mundo. Dinheiro, status, beleza ou saúde, nunca impediram alguém de tirar sua própria vida. De desistir. Todos nós somos humanos e vivemos na mesma merda de vida. Todos erramos, temos dúvidas, fazemos cagadas e algumas coisas boas (na maioria das vezes pra nós mesmos).
Eu, imundo, e vocês, bonitões, vamos pro mesmo lugar quando morrermos. Não vamos levar dinheiro, carro, namorada, emprego, nada. Todos vamos da mesma forma: iguais. Pois assim somos.

Eu não espero que vocês percebam isso, na verdade me divirto em vê-los vivendo nessa bolha imensa de ego e ilusão. Não rio pois nem lembro como se faz, mas me divirto por dentro. Acho curioso. Espero que eu possa diverti-los também com minha pobreza e podridão, que é o mínimo (e máximo) que posso oferecer como retribuição. Não precisam parar ao meu lado, dar esmola, me alimentar. Façam o que quiserem. Existam. Estudem. Trabalhem. Construam robôs à sua semelhança e deem as mãos. Explodam esse planeta. Explodam seus egos. Fodam todas e com todas as pessoas que conseguirem. Plantem uma árvore e postem no instagram pra mostrar quão eco-humanos-de-merda vocês são. Escrevam um livro sobre suas magníficas vidas. Escrevam nos seus blogs o quanto se preocupam com as questões sociais. Tenham um filho e os eduquem de forma que consigam entrar na faculdade e tenham ótimos empregos. E claro, pra que acordem, caminhem, desçam, mergulhem bonito no esgoto em que todos nós vivemos. Tenham fé, rezem, paguem o dízimo, façam bastante merda sim, mas não esqueçam de se confessar ao padre. E depois tomem cuidado pra que ele não moleste seus filhos.
Corram em busca da felicidade sem olhar pra trás nem pro lado, só tomem cuidado pra não serem atropelados, arrancarem seu braço fora e jogá-lo no rio. Sigam seus corações, amem e enganem quem quiserem, sejam homens, mulheres, travestis, árvores ou animais. Mas disfarcem e se escondam, pois nunca se sabe quando se pode apanhar na rua por causa de suas escolhas pessoais.

Eu me divirto pois isso tudo já é um caos. A vida só é bonita e justa no papel e na imaginação. Em livros, filmes e músicas. A realidade é uma só, e você fingindo que a enxerga ou não, ela continua a existir da mesma forma. Assim como eu. Mas continue criando a sua própria e bela realidade, afinal na cabeça de cada um ela é diferente. Na cabeça de cada um ela gira em torno do próprio e belo cu, e mantê-lo a salvo é o que tem de mais importante.

Vocês todos são imundos. Eu posso comer o lixo que vocês jogam todos os dias na rua, mas se pararem um pouco pra analisar, nós todos moramos dentro do mesmo e imenso lixo. Lixo que alguns chamam de sociedade.
Eu me divirto vendo essa falsa felicidade pra todo lado. Vocês são demais. Continuem assim. Lixos extraordinários, arrumados e perfumados. Assisto tudo de camarote. E mesmo invisível, parado e pensando, eu sou como vocês. Nossa única diferença é que eu enxergo tudo pois não tenho nada, já vocês querem tudo, e só enxergam o que lhes convém.
Eu sou a porra de um Harry Potter velho, imundo, vagabundo. E vocês não me enxergam pois sou um mero bruxo nojento e sujo usando minha capa da imundície. Isso deixa qualquer um aqui debaixo invisível pra vocês, não é mesmo?

E eu aqui, me decompondo, às vezes imagino: Quem sabe?
Quem sabe um dia vocês parem pra pensar também. Quem sabe percebam que vieram parar aqui não pra viverem sozinhos, e sim pra fazerem parte das vidas uns dos outros. Quem sabe percebam que a felicidade só é real quando compartilhada, e parem de viver nessa mentira que gira em volta da própria mediocridade. Quem sabe isso aconteça antes que eu acabe. Quem sabe o mundo acabe antes disso acontecer. Enquanto isso eu acompanho tudo daqui. Parado. Pensando. Fedendo.