A Cabra, a Sogra e o Dexter.

Tédio, morte e zoofilia juntos num mesmo sítio.

O Formigueiro Invisível.

“Pare”, “Siga”, “Ande aqui”, “Dirija ali”.

O Mundo de Verônica

Uma entrevista do Pedro Bial no meio de uma revista Playboy.

Quando você morrer

O que você quer ser quando morrer?

Psicotuitoanalise #1 - Fanatismo

O novo método twitteriano de psicanálise avançada freudiana cerebelística anonencefálica.

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segunda-feira, janeiro 06, 2014

Ao Infinito... e Amém.

Fazia bastante frio, mas Caio suava. Todos os dias quando ia pro colégio era a mesma coisa. Não importava o frio que fizesse, após uns quinze minutos pedalando ele já começava a sentir calor. Ele não conseguia pedalar vagarosamente, observando as paisagens, ou seja lá o que tivesse pra ver. Ele tinha que pedalar rápido. Não como um desesperado, mas rápido.
Naquele dia ele estava ouvindo rádio AM, pois seu mp3 só tinha 128mb e cabia cerca de 30 músicas, das quais ele já estava enjoado e mais uma vez tinha esquecido de trocá-las. Optou então pela rádio, pois preferia ouvir as notícias do dia do que as músicas que tocavam nas estações FM. Ouvia nem 10% do que falavam no rádio pois na maior parte do tempo sua cabeça voava. Sobre todas as coisas e em todas as direções. Ele só se lembrava de que estava ouvindo a rádio quando tocava um jingle do qual ele não gostava muito, que dizia "vambora, vambora, olha a hora, vambora!". Ele sentia um certo tipo de nervoso quando ouvia aquilo, mas não sabia explicar exatamente qual. Era diferente. É normal passar a desgostar de músicas ouvidas de manhã por associá-las com o fato de ter que sair da cama, mas aquela o irritava de um outro modo, ele só não sabia ainda qual. Talvez tivesse a ver com o fato daquela música ser associada ao pai, de quando ele se arrumava de manhã antes de ir trabalhar e ouvia a rádio no banheiro, mas agora fazia parte de sua vida também. Ele ainda não era um adulto, estava longe disso, mas estava agora ouvindo-a quase todas as manhãs.

Quando a rádio fazia um intervalo desse jingle e só ficava dando notícias, Caio aproveitava pra pensar. Ele gostava bastante de pensar sobre tudo, ainda mais sobre as coisas "difíceis de se pensar". Ao parar num semáforo, ele sentiu um pingo caindo logo abaixo do seu olho direito, na maçã do rosto. Sempre que isso acontecia ele ficava na dúvida se era gota de chuva ou xixi de passarinho, pois esta segunda ainda nunca havia lhe acontecido e ele sabia que sua hora ia chegar. Quando olhou pro alto viu um emaranhado de fios do poste, e lá mais no alto ainda, o céu. Ele queria poder voltar a cena em câmera lenta e ver o pingo subindo, voltando de onde veio, pra ele descobrir de fato sua origem. Seria um orvalho do fio, ou estava começando a chover? Enquanto imaginava a gota voltando no tempo e subindo, notou que alguém do seu lado atravessou a rua, e percebeu que o sinal já tinha aberto. Deixou então de olhar pro alto e seguiu de volta seu caminho. Resolveu que naquele dia pensaria sobre a imensidão do céu, algo que ele via todos os dias, que parecia tão perto, mas na verdade é tão longe. Que fazia parte da sua vida mas ao mesmo tempo estava tão distante. Que parecia o acolher mas ao mesmo tempo o desprezar. Podia ser bonito, mas também assustador. Tinha várias faces, e além de tudo era infinito.

Era uma loucura pra ele entender o fato de algo ser infinito. Era uma das coisas que davam "bug no cérebro". Tentar visualizar o conceito de infinito em sua mente não era possível. Da mesma forma que não dava pra imaginar de onde veio o Universo. Pra ele, o cérebro não é capaz sequer de conseguir imaginar a inexistência das coisas em si. Não se consegue imaginar o vazio.
Como imaginar se a vida não existisse? Não dá! De onde veio a vida? De Deus? Mas e Deus, de onde veio? De outro Deus? E este outro veio de outro, que veio de outro? Essa geração de Deuses também é infinita? Será que Deus é justamente isso, tudo que é infinito? A cabeça dele dava um nó. E ele até que gostava.
Pra ele as questões de Universo e Deus eram impossíveis de se refletir. Talvez seja por isso que essas coisas iniciem com letras maiúsculas, pois são coisas impossíveis de se pensar e chegar a uma conclusão de como funcionam. Assim como as pessoas. 
De onde viemos e pra onde vamos? Essa era uma questão que ele já havia desistido faz um tempo. Por ele, "vida" deveria iniciar com maiúscula também, assim como "morte". Será que quando morrermos entenderemos afinal o que é o infinito? Ou quem sabe faremos parte dele? Ou será que já somos, e até viemos dele? Ou será que aquele papo de paraíso e inferno existe mesmo? Maldito infinito. Maldito Deus. 

Ao passar por uma praça ele viu uma mulher andando acompanhada de uma criança, carregando papéis e o que se parecia com uma bíblia. Deviam ser testemunhas de jeová ou algo assim. Ele achava aquele tipo de pessoa realmente irritantes. Pra ele, parece que elas querem te obrigar a entrar na religião delas. Que desejam empurrar o Deus dela pra dentro de sua casa pra que seja o seu também. Por quê? Por que insistem em jogar o maldito Deus delas na cara dos outros? Vem com aquele papo de compartilhar a "palavra de deus", mas pra quê? Valeria muito mais a pena se ao invés de distribuírem palavras distribuíssem ações. 
Para Caio, as pessoas acreditariam mais em Deus ao ver coisas belas e positivas, ao invés de baterem com a bíblia na porta de suas casas tentando fazer com que engulam o que lá esteja escrito. Ele via muita discórdia e briga por causa de religião, e isso não fazia o menor sentido. Pra ele, religião era coisa do homem, e não de Deus. E o homem, como todos sabemos, é capaz de fazer tanto bem quanto mal. Se todos afirmavam que "Deus é amor", pra que todo esse ódio envolvido então? Foi então que ele chegou a uma conclusão sobre Deus. Não sobre o Deus de todos, mas o seu próprio. Pra ele, deus se encontrava nas coisas que transmitiam o "bem". Deus estava nas atitudes, e não lá no alto nos observando e anotando quantas bolinhas do terço rezamos. Agora então, deus não precisava mais de letra maiúscula.

Enquanto pedalava, Caio buscava então a presença desse seu deus, e ele o via por todos os lados. Devia ser verdade então aquilo de que ele é onipresente. Deus estava no sorriso dos pais que saíam do hospital carregando seu filho recém-nascido. Deus estava no beijo no rosto que a criança deu em sua mãe antes de entrar na escola. Estava na satisfação de um garoto ficando com uma menina, atrás do muro, do outro lado do colégio. Estava nas mãos dadas de um casal de velhinhos,os dois já enrugados, porém ainda juntos e aproveitando a companhia um do outro. No alívio daquele cachorro ao encontrar finalmente um lugar pra fazer cocô. No prazer daquela mulher ao correr e suar enquanto ouvia suas músicas. Deus estava por todos os lados.
Ele sentia deus ao se lembrar que naquele dia tinha novo episódio de Lost, e que à noite, quando chegasse em casa, poderia assisti-lo comendo fandangos. Sentia deus ao achar uma nota de dois reais no seu bolso, sabe-se lá desde quando ela estava ali. Sentia deus quando seu pai lhe dava um mp3 de 128mb de aniversário, enquanto todos tinham de 1gb, mas sabia que o pai nem sabia dessas coisas e comprou o que pôde, e o que o filho desejava. Sentia quando sua mãe demonstrava orgulho de quem ele era. Quando marcava um gol. Quando seu time marcava um gol. Quando fazia um gol contra, mas que tinha sido muito engraçado. Na masturbação discreta durante o banho. Ao roubar comida da geladeira na madrugada. Sentia deus quando se sentia livre, e que teria todo o futuro pela frente, podendo conquistar tudo que desejasse. Ele sentia deus na satisfação de ter concluído enfim o que seria, pra ele, deus.

E sentindo deus ele continuou a pedalar, perdido nos seus mais novos pensamentos. Até que veio um "vambora, vambora, olha a hora, vambora!" e cortou sua linha de raciocínio. Deus não está nesse jingle de jeito nenhum. Resolveu desligar o mp3 pra poupar bateria. Olhou pro lado esquerdo antes de atravessar a avenida e com uma das mãos tirou o aparelho do bolso. Deu três pedaladas rápidas e então ouviu um som tão desagradável quanto o jingle. Quando olhou pra sua direita viu um ônibus, que parecia estar maior do que o normal, talvez por já estar tão perto, e tão rápido. O som vinha da buzina estridente, que de nada adiantava, já não tinha mais o que fazer. Naquele momento, Caio não chegou a ver um filme de sua vida, mas se sua vida fosse um filme, aquilo teria sido apenas um frame. Foi muito rápido. Viu um flash do ônibus, e logo já não via mais. Sentiu como se estivesse voando, mas ao mesmo tempo paralisado. Não conseguia organizar seus pensamentos, só o que conseguia era ver e sentir. Ele via o céu, e sentia o nada. Foi a primeira vez que teve essa ausência de sentimentos. Nem paz nem agonia. Nem dor nem felicidade. E então, no último resquício de qualquer coisa, percebeu que sentia-se, assim como o céu que o encarava lá do alto... infinito. Sentiu também uma gota se esparramar na maçã direita do rosto, mas não tinha como saber se era a chuva que caíra de vez, se era lágrima, ou finalmente xixi de passarinho. Sentia que agora ele teria a resposta pras coisas maiúsculas, e que talvez elas nem fossem tão importantes assim. Sentiu que ainda não era hora de descobrí-las. Sentiu seu deus. "Vambora, vambora, olha a hora!". E então acabou. Olhou uma última vez pro céu. Agora eram todos apenas um: Ele, deus, e o infinito.

sábado, novembro 02, 2013

Mendigo.

Não tenho voz, não tenho nome, não tenho família. Não sei de nada, não leio, não assisto, não como nem bebo direito. Não tenho casa, não tenho vida. Mas estou vivo, então o que é vida afinal?
Seja o que for eu não terei, pois essa é minha função: não ter nada que exista por aí. Isso faz com que eu duvide às vezes de que eu próprio existo. Mas sei que sim. Posso não existir pra você, pra ele, pra aquela senhora que passa nessa calçada todos os dias, ou pra aquele garçom ali da frente, mas pra mim, eu existo. Eu sinto, eu respiro, choro, grito. Talvez vocês não entendam, talvez nem percebam que esse pedaço de qualquer coisa aqui no canto é uma pessoa. Deve ser realmente complicado perceber certas coisas aí de cima. Mas eu, aqui embaixo, vejo tudo.

Vejo vocês caminhando, se arrumando, trabalhando. Vocês acordam nas suas belas casas, tomam um banho, escovam os dentes, arrumam o cabelo, as roupas, a pele, o cheiro. Saem de casa e vão trabalhar. Trabalham, fazem o que uma outra pessoa maior que você manda, mesmo gostando ou não. Cada um de vocês faz isso porque precisa fazer, porque não tem escolha, porque se não fizer não vai poder acordar novamente no outro dia, se arrumar, ir trabalhar, cumprir ordens, dormir, acordar, ir trabalhar, cumprir ordens. Pois se não fizer, não terá como se sustentar, não terá onde morar. Assim como eu.
Isso me torna inferior? Talvez, mas o chão que me sustenta é o mesmo de vocês.

Vocês param pra pensar se eu vim parar aqui porque eu quero? Porque gosto? Porque sou preguiçoso? Não "consigo me integrar à sociedade"? Se eu perdi tudo? Se eu tive família? Se eu sou apenas um bêbado escroto filho da puta?
Eu posso ser cada uma ou nenhuma dessas coisas, mas eu posso fazer algo que vocês não são capazes. Parar pra pensar. Vocês já fizeram isso? Já pararam alguma vez? Ah, é verdade, estão atrasados pro trabalho, desculpe atrapalhar. Mas e pensar, já pensaram? Já pensaram em algo que não gire em volta dos seus próprios umbigos? Em algo que não envolva pedaços de papeis coloridos com onças e peixes desenhados, algo que não envolva seu status, seu ego, que não envolva a buceta de cada dia que tanto almeja? Já pensaram em parar um pouco pra pensar?
São as coisas que mais faço. Sempre parado, pensando. E no que eu penso? Em tudo que me convém pensar. Mas principalmente sobre vocês. Às vezes acho que sou o próprio tempo, pois fico aqui parado, constante, imutável, invisível, mas sempre presente. E enquanto isso vocês passam, caminham, rumo aos seus importantíssimos objetivos. Eu penso que, pra mim, vocês são como essa água que escorre no meio fio, sabem? Ela sai de dentro da casa e desce a rua. Desce, desce. Não sabe o porquê nem pra quê, mas desce. Se tem uma curva, ela contorna, segue o caminho moldado pra ela e vira. E desce. A cada quarteirão deixa seu rastro, e recebe mais sujeira. E desce. Até chegar no bueiro e se encontrar com todo o resto de água suja que desceu pelas outras ruas da cidade. São como vocês.

Eu posso não tomar banho, não escovar os dentes, não passar perfume, mas vocês são tão sujos quanto eu. Ninguém é melhor que ninguém. Eu deito, sim, todos os dias nessa rua, com meu cobertor imundo e cheiro de bosta, mas deito vazio. Sem ódio, sem amor, sem dívida nem rancor. Apenas vazio. E vocês quando se deitam, como é? Não pergunto sobre o lençol de seda ou travesseiro de penas de ganso, mas no que vocês pensam? Dormem tranquilos? Sabem sequer pelo quê estão vivendo? Ou apenas acordam, caminham, trabalham, e se vendem pra poderem depois comprar pelo menos 1% de todo o tempo que viveu? Como é viver 99 dias dando dinheiro pros outros pra que no centésimo e último dia tenha um pouco pra você?
Eu não faço ideia de como seja, afinal fico aqui, parado, pensando. Não tenho história nem nome. Não tenho passado, presente nem futuro. Talvez eu seja mesmo o tempo.

Mas se querem saber de uma coisa, não odeio nenhum de vocês. Se eu tivesse aí em cima, eu também fingiria não ver ninguém daqui. Não jogaria moeda nem comida. O ser humano é assim mesmo, e seja ele imundo ou empresário, favelado ou milionário, ainda assim é um ser humano. Sofrem dos mesmos problemas, tem as mesmas incertezas. Eu por exemplo não sei o que vai acontecer comigo. Não sei pelo quê vivo, o que eu quero. Me sinto distante demais de qualquer sonho que eu tenha, e às vezes esqueço até o que é sonhar, às vezes quero morrer. E tudo isso não é coisa minha, e sim de todo mundo. Dinheiro, status, beleza ou saúde, nunca impediram alguém de tirar sua própria vida. De desistir. Todos nós somos humanos e vivemos na mesma merda de vida. Todos erramos, temos dúvidas, fazemos cagadas e algumas coisas boas (na maioria das vezes pra nós mesmos).
Eu, imundo, e vocês, bonitões, vamos pro mesmo lugar quando morrermos. Não vamos levar dinheiro, carro, namorada, emprego, nada. Todos vamos da mesma forma: iguais. Pois assim somos.

Eu não espero que vocês percebam isso, na verdade me divirto em vê-los vivendo nessa bolha imensa de ego e ilusão. Não rio pois nem lembro como se faz, mas me divirto por dentro. Acho curioso. Espero que eu possa diverti-los também com minha pobreza e podridão, que é o mínimo (e máximo) que posso oferecer como retribuição. Não precisam parar ao meu lado, dar esmola, me alimentar. Façam o que quiserem. Existam. Estudem. Trabalhem. Construam robôs à sua semelhança e deem as mãos. Explodam esse planeta. Explodam seus egos. Fodam todas e com todas as pessoas que conseguirem. Plantem uma árvore e postem no instagram pra mostrar quão eco-humanos-de-merda vocês são. Escrevam um livro sobre suas magníficas vidas. Escrevam nos seus blogs o quanto se preocupam com as questões sociais. Tenham um filho e os eduquem de forma que consigam entrar na faculdade e tenham ótimos empregos. E claro, pra que acordem, caminhem, desçam, mergulhem bonito no esgoto em que todos nós vivemos. Tenham fé, rezem, paguem o dízimo, façam bastante merda sim, mas não esqueçam de se confessar ao padre. E depois tomem cuidado pra que ele não moleste seus filhos.
Corram em busca da felicidade sem olhar pra trás nem pro lado, só tomem cuidado pra não serem atropelados, arrancarem seu braço fora e jogá-lo no rio. Sigam seus corações, amem e enganem quem quiserem, sejam homens, mulheres, travestis, árvores ou animais. Mas disfarcem e se escondam, pois nunca se sabe quando se pode apanhar na rua por causa de suas escolhas pessoais.

Eu me divirto pois isso tudo já é um caos. A vida só é bonita e justa no papel e na imaginação. Em livros, filmes e músicas. A realidade é uma só, e você fingindo que a enxerga ou não, ela continua a existir da mesma forma. Assim como eu. Mas continue criando a sua própria e bela realidade, afinal na cabeça de cada um ela é diferente. Na cabeça de cada um ela gira em torno do próprio e belo cu, e mantê-lo a salvo é o que tem de mais importante.

Vocês todos são imundos. Eu posso comer o lixo que vocês jogam todos os dias na rua, mas se pararem um pouco pra analisar, nós todos moramos dentro do mesmo e imenso lixo. Lixo que alguns chamam de sociedade.
Eu me divirto vendo essa falsa felicidade pra todo lado. Vocês são demais. Continuem assim. Lixos extraordinários, arrumados e perfumados. Assisto tudo de camarote. E mesmo invisível, parado e pensando, eu sou como vocês. Nossa única diferença é que eu enxergo tudo pois não tenho nada, já vocês querem tudo, e só enxergam o que lhes convém.
Eu sou a porra de um Harry Potter velho, imundo, vagabundo. E vocês não me enxergam pois sou um mero bruxo nojento e sujo usando minha capa da imundície. Isso deixa qualquer um aqui debaixo invisível pra vocês, não é mesmo?

E eu aqui, me decompondo, às vezes imagino: Quem sabe?
Quem sabe um dia vocês parem pra pensar também. Quem sabe percebam que vieram parar aqui não pra viverem sozinhos, e sim pra fazerem parte das vidas uns dos outros. Quem sabe percebam que a felicidade só é real quando compartilhada, e parem de viver nessa mentira que gira em volta da própria mediocridade. Quem sabe isso aconteça antes que eu acabe. Quem sabe o mundo acabe antes disso acontecer. Enquanto isso eu acompanho tudo daqui. Parado. Pensando. Fedendo.


quarta-feira, agosto 21, 2013

O Mundo de Verônica

Lágrimas. Era o que Verônica sentia escorrendo pelo seu rosto enquanto lamentava sua vida, deitada na cama. Cada lágrima que escorria era uma mágoa, uma angústia, um sentimento de que não dava mais. Acabara de completar 22 anos mas já achava que era a hora de partir. Não havia motivação, não havia mais o que fazer. Sentia como se tudo que fazia desse errado, nunca conseguia cumprir seus objetivos, e os poucos que restavam pareciam estar muito distantes. Não dava mais. Mais lágrimas.
Sentia-se sozinha, deslocada, como se não fizesse parte daquele lugar. Verônica se via como algo totalmente inútil e desnecessário, longe de ser o centro das atenções, não fazia diferença nenhuma. Se via como uma entrevista do Pedro Bial no meio de uma revista Playboy. Ninguém dava a mínima pra ela ou sentiria sua falta caso ela não existisse, ela só estava ali por estar, porque a colocaram ali.
Quando fez essa relação de ser um mero texto dentro de uma revista Playboy, Verônica soltou um leve sorriso debochado e decepcionado. Isso resumia como ela se via, como meros blocos de letras e textos com seus significados, conteúdos e ideais, desejando ser absorvida, admirada, ou pelo menos apenas vista por alguém, mas sem sucesso. Tudo aquilo que estava ao redor, nas outras páginas, acabava atraindo bem mais a atenção de todos.

Tinha 22 anos e ainda era virgem, tendo beijado apenas dois rapazes. Não que ela se importasse tanto com isso, era daquelas que não ligava muito com o que pensavam e o que a sociedade estabelecia, ou pelo menos era o que afirmava. Mas se importava, e muito, em ainda não ter chegado nem perto de viver um grande amor. O mais perto de um relacionamento que chegou foi ter sido acompanhada por Eduardo de ônibus até sua casa após terem se beijado, sendo que após o fechar das portas ela nunca mais conseguiu vê-lo novamente. Se deprimiu de início, cansou os olhos de tanto chorar e acabou guardando rancor, após um tempo fingiu não mais se importar, e por fim fingiu que superou. Mas a mágoa continuava lá. Adorava assistir a comédias românticas, assistiu pelo menos umas 50 vezes "Como Se Fosse a Primeira Vez". Se divertia e aproveitava enquanto assistia, mas no final sempre acabava se sentindo mal, desolada, mais ou menos da forma que se sentia após se masturbar pensando no Michael Fassbender. De qualquer forma isso não fazia mais importância, afinal decidiu que tudo tinha chegado ao fim, que não dava mais, aquela era a hora. Verônica decidiu morrer, e foi aí que tudo mudou.

Ao olhar seu reflexo no vidro do medicamento, que segurava com sua mão trêmula, Verônica teve um insight, e acabou até quase esquecendo qual foi pois ficou pensando por que ainda usam a palavra "insight" ao invés de darem uma tradução pra ela. Verônica parou, seu coração deu uma acelerada, ela refletia, discutia e debatia hipóteses dentro da sua cabeça, duvidava da conclusão que havia acabado de chegar, mas por mais que tentasse ser racional não conseguia derrubar a verdade que acabara de desvendar. Continuava olhando o seu próprio reflexo distorcido, até que soltou o vidro, deixando-o cair no piso, e afirmou a si mesma, estupefata, em voz alta: "Eu sou uma personagem!".

E assim, de repente, Verônica passou a ter certeza de que tudo aquilo era uma mentira, que ELA era uma mentira. Ela estava na verdade dentro de uma história, era uma simples e inútil personagem. Percebeu que sua personalidade não passava de uma personalidade padrão, com a qual todas as mulheres se identificam. Se sentia frágil, desajeitada, com baixa autoestima, e frequentemente autodepreciativa. Se colocava pra baixo muitas vezes, mesmo em seus pensamentos. Insegura como era, sempre que se apaixonava ficava desconcertada perto de seu grande amor, e o tinha como um ser extraordinário e maravilhoso, praticamente perfeito. Estava sempre à espera de um romance para fazer de sua vida algo excepcional, em vez de tentar procurar sua felicidade com as próprias mãos. Era óbvio que era uma personagem, e o pior, escrita por alguém que utilizava destes estereótipos femininos pra conquistar mais leitoras.
Resolveu tomar uma providência pra deixar de ser quem era, e quando finalmente descobriu a verdade, sentiu que poderia se livrar de tudo e finalmente ser quem realmente quisesse. Olhou para o alto, onde teoricamente seu Autor se encontraria, e gritou: "Eu descobri toda a verdade! Descobri que sou apenas uma personagem qualquer, com uma personalidade padrão, vivendo às Suas custas! Mas com uma coisa Você não contava! Não contava que eu iria me descobrir sozinha. Agora me livrarei de Você, agora posso ser o que eu quiser! Como eu quiser! Irei me transformar, sair desse estereótipo imbecil, e não há nada que Você possa fazer pra me impedir!".

Verônica então saiu correndo do banheiro, decidida a desaparecer, decidida em se transformar. Fugiu de casa, largou tudo o que tinha, pois sabia que tudo aquilo era uma mentira. Mudou de cidade, de emprego, de faculdade. Ela queria ser diferente, queria romper com tudo e com todos, fugir daquele estereótipo que lhe era imposto.
Foi morar em São Carlos e lá iniciou sua faculdade de Letras. Decidiu que se tornaria escritora e criaria diversas histórias e mundos futuramente, onde suas personagens seriam fortes e originais, donas de seus próprios destinos e que vão atrás de seus sonhos sem depender de mais ninguém.

Anos se passaram e Verônica já era uma mulher completamente diferente. Agora com 28 anos, trabalhava na área editorial e no tempo livre saía com seus amigos e escrevia.
Aos 30 anos se casou com Marcelo, um rapaz que conheceu na editora em que trabalhava. Não foi como um conto de fadas. Não houve sofrimento, proibição, nem sequer dificuldades. Eles apenas se conheceram, saíram, e simplesmente sentiram que davam certo um com o outro. Ela não o via como um príncipe, nem como perfeito, mas via nele uma pessoa que a completava, e sentia que o completava de volta. Ela o abraçava por inteiro, com todas suas qualidades e defeitos, e cada vez mais o amava, desejando ser ele a pessoa com quem passaria o resto de sua vida.

Já aos 40, com mais de dez livros lançados e centenas de milhares de cópias vendidas, Verônica já começava a planejar abandonar qualquer outro tipo de trabalho e viver apenas através dos seus livros. Seu objetivo era que daqui não muito tempo pudesse passar a viver apenas viajando e escrevendo suas obras. Sua série intitulada "Coração Cheio de Algodão", que continha como protagonista Sarah, uma moça que se se sentia dividia entre liderar um grupo feminista e largar tudo pelo amor da sua vida, já era uma das mais vendidas na época, e ainda tinha muito pra render. Mas os planos tiveram que ser abandonados abruptamente. Marcelo descobriu que tinha câncer de próstata, e, com dois anos e meio de tratamento, veio a falecer.

Verônica então afundou-se em si. Ainda tinha, teoricamente, grande parte da vida pela frente, mas não tinha com quem quisesse vivê-la. Todos os planos tiveram de ser abandonados e esquecidos, como se nada tivesse sido pensado. Passou a apresentar indícios de depressão leve e por isso voltou a tomar seus medicamentos. Numa noite, em seu banheiro, Verônica abriu seu armário, pegou seu vidro de remédios, abriu, e congelou. Déjà vu. Se lembrou de anos atrás, quando se sentia arrasada da mesma forma, segurando um outro vidro de remédios. E o ódio surgiu. Verônica, abismada, sentiu que havia entendido tudo, mais do que daquela outra vez. Ela ainda não era livre, Ele ainda estava ali. Ainda era uma personagem. Tinha certeza disso, foi tudo pensado por Ele. Cada problema, cada obstáculo, cada conquista e cada tragédia. Só isso podia explicar os vários episódios que passara na vida. Ela nunca seria livre. Ficou transtornada. Decidiu que era a hora de acabar com tudo, e se vingar.

Sua vida não fazia mais sentido, só o que queria era se vingar dessa injustiça. Foi até seu quarto, sentou-se na cama, pegou seu notebook, e gritou, olhando pro alto: "Pois se é a mim que Você quer, a mim Você terá! Eu desisto de tudo. Desisto de ser livre, de tentar ser dona da minha própria vida. Já que foi Você quem me criou, e é Você quem vai continuar traçando o rumo da minha vida pra sempre, que seja do meu jeito! Ficaremos juntos, sim, até o infinito. Juntos num ciclo sem fim. Seremos ambos personagem e autor. Criador e criatura. Escravos um do outro. Agora serei Você!"

Verônica então assumiu um pseudônimo e criou uma nova personalidade, na verdade não uma nova, mas a Dele. Fechou os olhos e, num segundo de inspiração, assumiu que seu novo nome seria Januzza. Se ajeitou na cama, criou um blog e deu a ele o nome de "Januzzismo", que foi o mais ridículo que conseguiu pensar aleatoriamente. Clicou em nova postagem, e então começou a escrever a Sua nova e própria história:

Lágrimas. Era o que Verônica sentia escorrendo pelo seu rosto enquanto lamentava sua vida, deitada na cama. Cada lágrima que escorria pelo seu rosto era uma mágoa, uma angústia, um sentimento de que não dava mais. Acabara de completar 22 anos mas já achava que era a hora de partir...

sexta-feira, julho 19, 2013

Xeque Mate

Era uma noite como outra qualquer na minha casa: silenciosa, fria e parada. Eu, como era de costume, estava tranquilamente na minha cama jogando xadrez e tomando um suquinho de mango. Foi então, meu amigo, que comecei a reparar num negócio que, ou eu ainda não tinha reparado, ou tinha acabado de começar a acontecer mesmo. Comecei a ouvir um leve ruído vindo do meu armário-roupa, semelhante ao som de um bistolhudo, sabe? Meio que um misto do chacoalhar de duas pandetas com o tilintar de um besberro. Estava mais pra um runzido que um ruído pra falar a verdade, mas isso não vem ao caso. O mais curioso, meu amigo, não foi o fato de ter ouvido um estranho ruído vindo do armário-roupa, e sim que o ruído acontecia apenas na minha vez de jogar! O mais curioso ainda é que, naquele dia, meu amigo, assim como em todos os anteriores, eu estava jogando sozinho o tal do jogo-esporte xadrez. Confesso que fiquei, sim, um tanto encabulado.

Acontece que eu, como um fiel seguidor do Tristianismo, fiz um juramento em meu batismo no qual eu prometi que jamais abandonaria uma partida de xadrez enquanto ela não fosse concluída. Lembro das várias vezes em que houveram partidas disputadíssimas que duraram vários dias e eu não pude abandonar o assentamento da disputa. Obviamente em várias dessas vezes o meu assentamento se transformou num monte de fezes, mas eu não reclamo não, meu amigo, eu sei ser positivo, e o que eu sentia de tudo aquilo era apenas um assentamento macio, cremoso e quentinho. Eu sempre consegui enxergar a metade cheia da merda.

É claro que com o tempo eu aprendi e passei a deixar um penículo sempre ao lado caso precisasse, o problema é que, como eu sempre joguei sozinho-comigo-mesmo, era sempre a minha vez de jogar, e desta forma eu nunca tinha tempo pra fazer outras coisas a não ser pensar no próximo movimento. Foram anos seguindo à risca meu juramento sem falhar, mas confesso, meu amigo, que desta vez não estava nada fácil. Aquele runzido insistia em me desconcentrar. Eu já suportei telefone tocando, cachorro latindo, Balvão Güeno narrando, castarilhos caindo, mas aquele runzido, ah, aquele runzido, insistia em me atrapalhar.

Foi então que decidi tomar uma atitude drástica. Sim, amigo, às vezes sou bastante ousado. Resolvi que faria meus movimentos pensando no máximo dez segundos antes de fazê-lo, com o objetivo de terminar logo aquilo e poder averiguar o que poderia ser o maldito ruído. Confesso que me senti um pouco mal agindo daquela forma, mas não havia nada no juramento que impedisse que eu jogasse com pressa, então següi em frente.

Os segundos passavam, os ponteiros giraloravam, tac tic, eu girava o tabuleiro. O suor escorria, minhas mãos tremiam, tac tic. Eu molhava o tabuleiro de suor, os cavalos escorregavam, os bispos sapateavam, tac tic. Havia uma tensão no ar. Comecei até a ouvir uma música de suspense/adrenalina, ela fazia tutatutatutatutatuta, mais ou menos como naquele filme Estripcosis. A música foi me desesperando, eu movia rapidamente as peças, o tabuleiro girava de um lado pra outro, eu jogava de volta, ele girava, suor escorria, a música tocava, eu jogava de volta. Quando resolvi parar um momento pra respirar, percebi que a música na verdade era apenas o runzido mesmo. Irritado, fechei os olhos e respirei profundamente, fazendo avuar o suor que escorria e chegava em minha boca. Olhei de volta pro tabuleiro e vi. Sim, meu amigo, eu vi, era claro como a luz do Dida, estava ali, brilhando pra mim, chegava a ser irritante de tão cristalina. Eu conseguia visualizar a próxima jogada, como se setas digitais surgissem sobre o tabuleiro e mostrassem o que estava pra acontecer. Eu estava me sentindo dentro de um tira-teima do Arnaldo César Coelho. Reuni toda a energia que pude, e gritei, em alto e bom fom:

- XEQUE. MATE.

E foi aí que fui surpreendido, amigo, deverasmente surpreendido. O runzido de repente parou. Houve uma breve pausa no tempo, como aquela do Matrix em que tudo para e a câmera gira (só que sem a câmera girando, no meu caso), o armário-roupa vibrou, abalou, sacudiu, balançou, e por fim caiu. Poeira foi levantada e após esfregar meus olhos vi, olhando pra mim, um singelo e assassino cheque. Sim, meu amigo, um cheque sobrevoava logo à minha frente e me ameaçava com uma frasca em uma de suas pequenas mãos.

- Mas oh, cheque, o que fazes aqui? O que queres de mim? Sou apenas um simples e humilde Tristão jogador de xadrez. - perguntei me fazendo de desentendido, afinal, eu não estava entendendo nada mesmo.

- Aow to aqui porque recebi um chamado. Eu passei anos viajando de armários-roupa pra armário-roupas em busca deste momento que acaba de chegar. Aow você pediu pra que eu te mate, e é isso que vim fazer. Aow.

- Mas oh, cheque, é aí que vosmecê se engana! Admito, sim, que pedi que matasse, mas não foi a ti que pedi, companheiro cheque. O objeto no qual me dirigi era um Xeque, e não um cheque. Compreendes o mal entendido? Compreendes o Xis dessa questão?

Foi então que algo esplendorosamente assustador aconteceu. O cheque se virou de costas, flutuando, e a verdade foi atirada em minha face como um catchoro na turbina de um avião. Ele mostrou sua marca no que seria a parte de trás de um ombro, caso ele fosse uma pessoa, e então percebi que ele era nada menos nada mais do que um cheque da Xuxa, ou seja, começava com X, como tudo mais que a ela pertence. Fiquei aterrorizado. Pulei da cama, peguei todos os objetos que apareciam na minha frente e os atirava no inimigo. Porém, tudo que eu atirava o Xeque simplesmente engolia, e após poucos minutos meu quarto já estava vazio. Foi só então que percebi que na verdade se tratava de um Xeque sem fundo.

Eu não tinha mais nada, ele engolira tudo que atirei, meu amigo, inclusive minha dignidade. Só o que restava era minha esperança. Caí de joelhos, pus minhas mãos em minha face e tentei arrumar alguma solução. Foi quando eu percebi que o runzido havia voltado, e não só tinha voltado como estava ficando diferente. Ele aos poucos começou a se transformar, aumentar o volume, e comecei a ouvir uns sonzinhos diferentes, como pianinhos, tecladinhos e tintilinhos do além. Enquanto o som foi aumentando fui levantando a cabeça, era como se aquele som estivesse me dando forças. Ele continuava, o Xeque ainda olhava pra mim, mas de repente soltou sua frasca, e deu um leve sorriso de canto de boca, como se impressionado. E então o runzido cantou:


♪ Tudo pode ser, se quiser será
♪ O Sonho sempre vem pra quem sonhar

E então eu entendi, meu amigo, eu entendi tudo. Eu entendi a vida. Entendi o Xeque. Me entendi. Entendi você.

♪ Tudo pode ser, só basta acreditar
♪ Tudo que tiver que ser, será

Era Lua de Cristal tocando, e a única coisa que sou capaz de dizer sobre aquele momento, amigo, é que: foi lindo. Embalados pela melodia da canção e pela voz da Rainha Xuxa, eu e o Xeque cantamos e dançamos. Unidos. Felizes.

♪ O sonho está no ar
♪ O amor me faz cantar

Transamos ali mesmo.

Hoje, anos depois, eu e Xeque formamos uma linda família. Tivemos quatrocentos e trinta e cinco chequinhos filhos, dos quais vendemos todos, exceto os sem fundo. Nossa vida é baseada em jogar xadrez ao som da Rainha Xuxa, não saímos mais de casa e não trabalhamos mais, afinal quando precisamos de dinheiro fazemos novos filhos.

Essa é minha história, e se ela tivesse que ter alguma moral, algum recado pra passar, acredito que seria: Vamos com você, nós somos invencíveis, pode crer ;)~

Grande abraço.

quinta-feira, fevereiro 28, 2013

A Toalha, o Dinheiro e a Casinha.

[Este texto é a continuação DESTE TEXTO AQUI. Então já sabe né.]



Eu teria que agir o mais rápido que eu pudesse e fazer a primeira coisa que viesse em mente, pois caso contrário perderia tempo e minha namorada poderia encontrar sua mãe estirada no chão, sangrando, e eu ainda com as calças no tornozelo. A primeira coisa que fiz foi pegar a toalha que minha sogra foi buscar e cobri-la, pois assim não seria identificada ao longe. Logo em seguida, ainda sem saber o que fazer exatamente, comecei a levantar minhas calças e me preparei pra sair em disparada em direção à casa, pra tentar impedir que alguém chegasse até o local. Logo que minhas calças alcançaram a cintura dei uma última olhada pra trás, enquanto dava o impulso pra começar a correr, e foi quando a vi, a cabra ainda estava ali, parada, com o traseiro apontado pra mim e sua cabeça também em minha direção. Ela disparou um olhar como quem estava dizendo telepaticamente "você fez uma puta duma merda seu safado, uma grande merda mesmo, gigantesca, cê tá fudido, não vai se safar dessa não, rsrsrshahauha". Me desconcertei com aquele olhar e acabei tropeçando no meu próprio pé e caindo em cima da minha sogra, sobre a toalha. Me levantei assustado com a queda, com a cabra, com tudo, e finalmente saí correndo, mas dessa vez sem a loucura de olhar pra trás. Se Usain Bolt estivesse correndo ao meu lado naquele momento, ele perderia.
Atravessei o quintal, a cozinha, e cheguei aos trancos e barrancos na sala de estar, com uma cara de filho da puta, suado, arranhado, com a braguilha aberta, na mesma hora que minha namorada abriu a porta. Ambos nos assustamos com o encontro, mas foi ela quem perguntou primeiro:
- Nossa que isso!? Por quê você ta desse jeito?
(Pensa pensa pensa caralho pensa)
- Ah! Eu tava correndo atrás da galinha que fugiu, tentando pegá-la. rsrs
- Como assim fugiu? Elas já ficam tipo... soltas.
(pausa dramática - pensa pensa pensa)
- Não, é que tipo, uma saiu do lugar onde elas ficam, costumam ficar, foi correndo sozinha pra outra direção, aí eu fui lá pra tentar mandar ela de volta, só que acabei caindo e tal haha.
- Ahn... rs
- Eu gosto de correr também.
- Não sabia.
- É, tava afim de correr, fazer alguma coisa, haha
- Entendi. Na verdade eu voltei porque esqueci o dinheiro em cima da mesa - por que TODO MUNDO tava esquecendo alguma coisa naquele dia só pra me ferrar? - vou ali pegar logo, o caseiro tá esperando. 
- NÃO PREcisa! - consegui perceber na primeira sílaba da segunda palavra que eu estava um pouquinho alterado e que talvez ela percebesse, então amenizei o tom da voz, o que talvez tenha deixado a frase ainda pior, mas foi o que deu pra fazer - Eu busco pra você.. meu... amor.
- Nossa, "meu amor"? Que bicho te mordeu? - talvez eu não fosse tão romântico na maioria do tempo.
- Uma galinha!! hahaha - ri como se aquela fosse uma das melhores sacadas humorísticas da década, ao mesmo tempo em que mantinha uma cara de leve desespero e meu olho se carregava com uma pequena quantidade de lágrimas, obviamente não pelo humor, mas pela angústia dentro de mim. Me virei logo e fui buscar a porra do dinheiro.

A janela da cozinha dava de frente pro local onde havia uma cabra dissimulada e uma toalha toda ondulada, como se houvesse alguém se escondendo embaixo dela, então era melhor que eu mesmo fosse pegar o dinheiro pra não correr o risco dela ver aquilo lá fora. Entreguei os trinta reais, e ela logo então voltou para o carro e juntamente com o caseiro partiu de vez pra comprar sei lá quais merdas pro maldito café da tarde.
Eu estava transtornado, sentia que a qualquer momento poderia desmaiar, mas tentei ser o mais forte possível pois caso isso acontecesse a merda seria maior. Dei uma rápida e profunda respirada e logo depois reativei meu modo Usain Bolt, correndo sem nem saber pra onde, nem o que fazer, mas correndo, o negócio era esse. Corri por alguns segundos até que cheguei no quintal e o que eu vi foi arrasador, ou melhor, o que eu NÃO vi. MINHA SOGRA NÃO ESTAVA MAIS LÁ! NEM ELA, NEM A TOALHA, A CABRA, O VAral... ué, o varal? Foi quando eu percebi que na verdade eu tinha corrido pro outro lado da casa, e lá não deveria ter nada mesmo. Teria sido engraçado aquele momento de grande desespero pensando que minha sogra havia reacordado e sumido dali, mas não foi pois eu estava realmente desesperado. 

Parti em direção ao local do crime, e confesso que senti certo alívio quando avistei aquelas ondulações cobertas por uma toalha no chão. Mas a cabra já não estava mais lá. 
Chegando ao lado da minha sogra, que ainda se encontrava inconsciente, comecei a refletir enquanto recuperava o fôlego. O que Dexter faria num caso desses? - eu pensava. Ele era o rei de fazer merda, matar pessoas, e nunca ser pego. Não é possível que eu, na minha primeira grande merda, já me foderia.  
Foi quando eu virei a cabeça pro meu lado esquerdo e a avistei, ela, a maldita cabra. Ela estava parada, ao lado de uma casinha (dessas que abrigam todas as coisas inúteis do sítio e que ninguém tem coragem ou saco pra jogá-las fora), olhando pra mim. Me olhou fixamente por cerca de 5 segundos, dando umas 3 mastigadas neste intervalo de tempo, e depois olhou pra entrada da tal casinha, onde ficou olhando por uns 2 segundos, antes de voltar a olhar pra mim. A mensagem foi clara, e eu a captei.  
Eu tentei várias formas, mas a melhor e mais fácil que encontrei de carregar minha sogra semi-obesa até a casinha foi puxando-a pela perna, talvez houvesse um modo mais prático, mas eu não descobri no momento. Eu não tinha tempo pra pensar se ela estava se machucando muito no percurso pois eu estava ocupando minha mente com questões mais importantes como por exemplo "ok, vou levá-la até a casinha, mas e depois o que é que vou fazer com a desgraçada?". 

Chegando lá dentro, fechei a porta de madeira, e me agachei ao lado da desmaiada. Pensei no máximo de possibilidades possíveis do que fazer. Se eu a deixasse viva, estaria fudido. Se ela não ficasse viva, não seria tão diferente assim, pois eu com certeza seria o principal suspeito por ter ficado sozinho com ela no sítio durante este período. Mas e se ela simplesmente desaparecesse? Sem mais nem menos? Assim como as vítimas do Dexter. A diferença é que ela não era uma criminosa qualquer, uma assassina, e teria pessoas que sentiriam sua falta. Mas nenhuma das possibilidades, por mais absurdas que fossem, era pior do que deixá-la viva. Sobre isso eu estava decidido. A única dúvida que restava era o que fazer com o corpo depois. Enquanto eu não chegava a uma conclusão, vi uma lona, como aquelas que ficam em carrocerias de caminhões, num grande rolo, embaixo de uma bancada. Foi quando eu repentinamente decidi de vez o que faria. Eu agora já tinha uma lona pra revestir o interior (ou grande parte) da casinha, e uma bancada pra colocar minha sogra em cima. E então, sabendo o que fazer, dei início ao meu primeiro ritual. 


Continua...

terça-feira, janeiro 08, 2013

O Formigueiro Invisível.


Sofia havia acabado de assistir ao filme "Waking Life" e estava se sentindo inspirada, como se após aqueles minutos olhando pra tela de sua tv tivesse passado a entender muito mais sobre a vida. Não a dela, nem de ninguém, mas a vida em geral. Coisas que no fundo ela sentia que já sabia, mas ainda não havia parado pra pensar mais detalhadamente. De qualquer forma, se sentia agora mais viva, mais liberta. Liberta nos pensamentos, na vida, nos sonhos, em tudo. Liberta na sua essência. "E se tudo isso for realmente apenas como um sonho?" Ela pensava. Ela não se conformava com aquela vida robotizada, com todos aqueles dias iguais, máquinas caminhando pra cumprirem com suas rotinas como se houvesse algum propósito, enquanto no fundo todas elas sabem que não há propósito nenhum no final das contas. Final das contas? Elas nunca acabarão na verdade. Não só nunca acabarão, como são elas próprias o motivo pra quase tudo isso.
Sofia queria mudar, e sentia que podia. Não sabia ao certo mudar o quê, nem como, mas sentia que podia. Sentia que quem limita a vida de cada um são as próprias pessoas, que quem molda nosso dia a dia e nossas necessidades somos nós mesmos. Uma certeza ela tinha, ela queria mudar. Enquanto pensava e caminhava em direção à Estação, sua respiração acelerava. Queria quebrar a rotina, não sabia nem por onde  nem como começar, mas tinha certeza que podia. Até que nessa excitação mental entre querer e poder, acabou esbarrando em um rapaz que seguia o caminho contrário ao dela. 

- Desculpe! - Ela disse.
- Opa, desculpa aí. - Ele respondeu.

O rapaz seguiu seu caminho e Sofia permaneceu parada um momento. Aquela excitação fora trocada por uma dose de adrenalina instantânea devido ao trombo com o rapaz, e por um instante ela pareceu ter se esquecido do sentido de tudo aquilo que tinha em mente. Nada fez sentido por alguns poucos segundos, até que quando moveu sua perna para continuar seu caminho, todo aquele sentimento retornou, tudo voltou à mente. Sofia lembrou que não só queria como podia mudar, e percebeu que aquela poderia ser a hora. Tinha até os diálogos do filme que acabara de assistir vivos na memória, e achou aquele momento mais do que oportuno. 
Se virou pra trás, deu uma corridinha em direção ao rapaz que havia acabado de trombar, e gritou:

- Ei, você!

Ele olhou pra trás, fez um gesto como se questionasse se era com ele mesmo, e ela devolveu com um gesto afirmando que sim. Ele virou a cabeça pra confirmar que ela estava mesmo o chamando e não alguém atrás dele. Confirmou, e então foi em direção à ela. Quando se aproximou, Sofia logo disse:

- Podemos começar de novo? Sei que não nos conhecemos... Mas eu não quero ser uma formiga. Passamos pela vida esbarrando uns nos outros, sempre no piloto automático, como formigas, não sendo solicitados a fazer nada de verdadeiramente humano: “Pare”, “Siga”, “Ande aqui”, “Dirija ali”.

O rapaz a olhava com ar de desconfiado, talvez confuso, e depois de uma minúscula pausa apenas pra recuperar o ar, ela prosseguiu:

- Ações voltadas apenas à sobrevivência. Toda comunicação servindo para manter ativa a colônia de formigas, de um modo eficiente e civilizado: "O seu troco.", "Nota fiscal paulista?", "Crédito ou débito?", "Aceita ketchup?". - Ela ia discursando cada vez mais animada, até um pequeno sorriso ia se formando enquanto ela continuava:

- Não quero um canudo. Quero momentos humanos verdadeiros. Quero ver você. Quero que você me veja. Não quero abrir mão disso. Não quero ser uma formiga, entende? - Agora ela ansiava por uma resposta, e parecia que era o momento. Após um breve silêncio absoluto, o rapaz entendeu a situação e finalmente respondeu:

- Ahn, beleza, cê mora aqui perto gata? 

Sofia murchou, se decepcionou intensa e instantaneamente, como se aquela adrenalina de segundos atrás tivesse tomado o caminho contrário e a atingido em cheio. Estava perplexa. Destruída. Abaixou a cabeça e fez o seu melhor para retornar ao caminho da Estação sem que fosse seguida, ou quem sabe assediada, não sabia mais de nada, apenas que queria sair dali. Ela agora não tinha mais tanta certeza assim de que é possível mudar, não tão facilmente. Não sozinha. Entrou no metrô.

Sofia chegou em casa desolada, e a primeira coisa que fez ao abrir a porta foi apertar o interruptor, que não respondeu ao seu comando. Apertou novamente. Nada. A  luz simplesmente estava lá, nem acesa, nem apagada, apenas luz, e ela nada poderia fazer em relação a isso. Se deitou. Sonhou. Acordou.

Acordou.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

Então é Natal

Aconteceu uma coisa muito louca neste natal. A ceia tinha acabado, o pessoal já havia ido embora, e então eu fui pro meu quarto pra trocar de roupa e assistir alguma coisa até dar sono.
Confesso que não dou muita bola pro Natal não, mas acho uma data muito importante, não pra mim, mas pro mundo em geral. Não por comemorar o suposto nascimento de Jesus ou sei lá o quê, mas pela mobilização de todos, pela união que acontece entre as famílias, amigos, e etc, que geralmente acontece na data.
Troquei minha roupa, peguei o controle remoto da tv e me preparei pra deitar na cama, até que: pawtrastrustastistis (onomatopeia de alguma coisa caindo do lado de fora da janela do meu quarto). Meio assustado, fui em direção à janela pra ver o que era, e quando a abri logo se levantou do chão uma pessoa toda de branco e com asas, que quando a vi soltei um leve grito ("aauhh") e dei dois passos pra trás, mais assustado ainda. 

Era uma mulher vestida de anjo, de pele um pouco clara, aparentando ter uns 45 anos, os cabelos eram encaracolados e escuros, tipo o do Maradona na época que jogava bem e cheirava cocaína, só que um pouco mais armado (o cabelo) e maior. Ela estava com um sorriso estampado no rosto e a mão esquerda levantada, como um garçom que segura uma bandeja, só que sem a bandeja. Parecia estar esperando que eu a convidasse pra entrar, mas aquela situação era muito estranha pra mim, mais estranho ainda é que de alguma forma ela me era familiar, eu já havia visto aquele sorriso em algum lugar. Seria o Natal realmente mágico? Deus teria mandado um ANJO pra falar comigo? Será que eu sou especial? Sou eu quem vou salvar a humanidade?? Várias coisas passavam pela minha cabeça.

Ficamos nessa por uns 30 segundos, eu parado e ela com o sorriso, do lado de fora da janela, até que resolvi falar, e quando abri a boca pra perguntar "wtf?", ela me interrompeu:
- Então, então é Natal - disse de uma forma clara e singela, ainda com o sorriso.
- É, tô sabendo - respondi.
- E o que você fez?
Essa pergunta me deixou na dúvida, como assim o que eu fiz? O que eu fiz no Natal? No ano? Na minha vida? Espera, o que tá acontecendo aqui? Mas enfim, escolhi a primeira opção.
- Ah cara, teve um amigo secreto aqui agora há pouco, ganhei umas havaianas, e depois fiquei só comendo mesmo. Até sobraram algumas coisas ali, se você quiser.. - resolvi arriscar que ela estava em busca de comida. Não tinha cara de mendiga, mas era uma hipótese..
- O ano termina, e nasce outra vez.
- Verdade né, rs - poucas conversas na minha vida fizeram tão pouco sentido quanto aquela que eu estava tendo no momento.
- Então é Natal, a festa Cristã - Ela insistia
- Olha ok, legal, mas pelo amor de deus, diz logo o que você quer! Ou de onde você veio, ou melhor ainda, QUEM CARALHOS É VOCÊ??
Logo o sorriso dela finalmente desapareceu, enfim abaixou sua mão que segurava a bandeja invisível, e olhou com cara de desapontada pra mim. Senti que peguei pesado, mas não sabia por quê.
- Então você não me conhece? - ela perguntou.
- É... não - eu ainda tinha dúvidas se a conhecia ou não.
- Claro que não, hoje em dia ninguém mais ta preocupado em passar o natal de forma decente, ouvindo MÚSICAS NATALINAS, hoje o povo só quer saber de putaria, de Walesca Popozuda, Mr. Catra, e essas merda toda.
- Ca- calma moça, não é assim também, eu até...
- Calma o cacete! E moça o caralho! Tenho mais de 50 anos seu pivete dos inferno. Tá vendo esse monte de cds aqui?? - ergueu um saco branco que parecia ter uns 300 cds lá dentro e sacudiu - Todos gravados por mim! Antes as pessoas compravam por livre e espontânea vontade, elas adoravam, cantavam, essa merda era o hino do natal! Mas agora não, agora vocês ficam aí com esses lixos de músicas, que me dá até vontade de cagar no cd, vomitar em cima, e depois dar pro artista comer, tipo aquele vídeo lá do 2 girls 1 cup, sabe?
A conversa estava indo longe demais, e eu ficando mais preocupado e assustado com tudo aquilo. E pra piorar ainda me lembrei de imagens do vídeo que ela citou.

- Ok. Calma moça. Digo, senhora. Ou senhorita. Vai dar tudo certo, mas antes você precisa me dizer o que é que você quer, senão eu não consigo te ajudar. Pode ser? - fiquei até impressionado com minha serenidade
- Meu queridinho, quer saber o que eu quero? Eu só quero que todo mundo volte a comprar essa merda de cd, que cantem e façam uso dele no natal. Tudo que eu tinha na vida era o Natal. Todos me amavam, se lembravam de mim, me chamavam pra cantar as músicas ao vivo, já fui até pro Faustão!
- Nossa, é mesmo? Você não deve ser muito da minha época de faustão então, porque acho que realmente não te conheço, - a mulher já tava pirando de vez só podia - mas eu não tenho a memória muito boa também né, pode ser isso.
- É, pode ser. Mas enfim, compra um cd aí.
- Pera. Espera. É SÓ ISSO que você quer então? Invadiu minha casa vestida de anjo, veio com uns papos estranhos, me xingou na minha própria janela, tudo isso só pra que eu compre essa merda de cd??
- Merda não! Isso aqui é o espírito natalino encarnado num cd meu queridinho.
- Tá, tá, entendi. E quanto custa?
- Quanto vale o natal pra você?
Suspirei.
- Ah sei lá, acho o natal super importante e tal pro mundo, mas não sei dar um valor assim em dinheiro pra ele. Acho que nem tem como.
- Vale mais que seu rim?
- Como assim vale mais que meu rim?
- O Natal, ele vale mais que seu rim?
- Porra, como assim?? O que tem a ver uma coisa com a outra??
- Você trocaria seu rim por uma noite de natal??
- Nossa que tipo de pergunta é essa cara!? Não, eu não trocaria!
- Então seu rim vale mais que o Natal?
- Mas que caralho, se for assim vale então, não sei, que merda!
A última coisa que eu vi foi a senhora senhorita tirar algo de dentro do saco de cds, e depois apenas luz. Uma grande luz. Enorme. Luz.

E então eu acordei hoje, com uma puta dor estranha na barriga, meio zonzo, meio sei lá. Com um puta frio também, dormi com a janela aberta, e ainda tinha um pouco de sangue perto de mim, acho que o idiota aqui bebeu tanto ontem que deve ter se cortado e nem percebeu. Mas fiquei feliz quando acordei na minha cama e não tinha mais senhora-anjo nenhuma na minha janela, ou seja, era tudo um sonho né!! haha aiai. Um sonho bem estranho por sinal.
Mais estranho ainda foi que na cabeceira da minha cama havia um cd da Simone, que nossa, eu não via ele aqui em casa faz milhões de anos, e ele ta até com cara de novo. Minha mãe deve ter achado e o colocado aqui, o que não faz sentido mas ok.

Mas enfim, Feliz Natal.




segunda-feira, agosto 27, 2012

A Cabra, a Sogra e o Dexter.



Tinha chegado o fim de semana e eu tava super animado, a ideia era ficar o dia todo embaixo do cobertor e finalmente terminar a quarta temporada de Dexter. Aliás, vale dizer eu tô bastante viciado em Dexter, às vezes me sinto até como se fosse ele, uma vontadezinha aqui e ali de enfiar a faca no peito de alguém, mas nunca passa da imaginação né. Sonhos relacionados ao assunto já são normais. Enfim, minha ideia de zerar Dexter no fim de semana logo foi por água abaixo, pois minha namorada deu a bela notícia de que passaríamos sábado e domingo no sítio dos meus sogros, que fica em Caçapava. Meu sogro havia viajado a trabalho pro Mato Grosso do Sul, e minha sogra ficaria sozinha com o caseiro no sitio, caso não fôssemos. Pra agradar a todos (menos a mim), fui pro maldito lugar. Quem sabe passar aquele fim de semana lá faria com que minha sogra passasse a demonstrar mais carinho por mim. (Já adianto que não deu muito certo)

O sítio até que é legal, tem bastante "verde" e vários animais por lá. Chegamos um pouco antes do almoço, comemos um belo frango assado, ou dois(minha sogra tava meio obesinha, comeu um quase sozinha), e fui descansar na rede depois. Eu estava lá deitado na varanda, relaxando, olhando pros cachorros que ficavam indo pra lá e pra cá, os cavalos lá longe, as vacas, até que eu vi que tinham cabras também. Interessante, cabras - pensei. Foi quando veio uma velha lembrança. Lembrei de uma noite em que eu estava na casa da minha avó, anos e anos atrás, assistindo ao Praça é Nossa (sim isso mesmo), na época em que ainda tinham o deputado Tiririca como um de seus integrantes. Lembro que ele falou algo de que na terra dele era normal iniciarem a vida sexual com cabras, talvez não com essas palavras, mas foi o que ele quis dizer. Isso foi um pouquinho chocante pra mim na época, e me fez lembrar diretamente de uma outra coisa, só que da época ATUAL: minha vida sexual. Quatro meses de namoro já e... nada. Não que eu seja um cara insensível que só liga pra isso, mas é que um homem tem suas necessidades afinal de contas. Fiquei ali refletindo sobre isso por alguns segundos até que ouvi um comunicado por parte da minha sogra. Ela disse que minha namorada iria com o caseiro até o centro da cidade comprar as coisas pro café da tarde e perguntou se eu iria junto, disse também que ela não iria pois tinha que tomar banho naquela hora pra não ter que perder a novela depois. Olhei pra ela, com preguiça de pensar, olhei pro horizonte, vi a cabra de relance, olhei de volta pra ela, pra cabra, pra ela, e por fim disse que ficaria ali no sítio mesmo descansando. Minha consciência não entendia direito o que estava acontecendo, ou pelo menos não queria me contar, mas percebi que o clima de repente mudou.

Ouvi o barulho do carro saindo, e logo depois um *SLAP*, que era o barulho da porta do banheiro que minha sogra havia acabado de fechar. Meu inconsciente então sussurrou algo como: "é agora". Olhei de longe em direção à cabra, e corri em direção dela. Eu não sabia bem o que passava pela minha cabeça, mas seguia em frente. Me aproximei, ela me olhou parecendo estar um pouco assustada, mas ao mesmo tempo com segundas intenções. Estava com aqueles olhos de ressaca, me encarando de relance, com a cabeça um pouco baixa, como quem come grama enquanto olha disfarçadamente pra sua presa sexual. Eu não sabia bem o que eu estava fazendo ali, mas de alguma forma ela me hipnotizou, e como num passo de dança ela se virou de costas pra mim, ao mesmo tempo que me desloquei pro lado e acabei ficando atrás de uma toalha pendurada no varal, como se assim eu me escondesse do resto do mundo. A hora era nossa, por trás da toalha aconteceria um momento sublime e marcante na vida de nós dois. Eu não sabia se gritava, se chorava, urinava, mas ao que tudo indicava eu estava realmente fazendo aquilo, e continuei. Por fim abaixei as calças, coloquei as mãos no traseiro da cabra, respirei fundo, fechei os olhos, ouvi um grito, e.. opa, ouvi um grito. Foi quando meu cérebro processou em 0.435 segundos a informação de que aquilo não poderia ser o grito de uma cabra, era mais similar ao de uma galinha, ou quem sabe de um marreco, ou quem sabe de minha sogra. Minha sogra. Abri os olhos.

Virei pra trás, e ali estava ela. Minha sogra havia esquecido a toalha no varal e, quando foi buscar, encontrou apenas seu genro de costas com as calças abaixadas e as mãos no traseiro de uma cabra. (quem nunca?)
Foi quando meu cérebro processou em 0.895 segundos várias informações, entre elas "qual a explicação mais plausível e prática que posso dar pra esta cena lamentável?", "teria sido bem mais fácil se a filha dela tivesse liberado a- ", "puta merda ela chegou bem na hora que eu ia m-", e a última foi "mas e se eu...", foi quando eu nem terminei o pensamento e dei uma senhora cotovelada no meio da fuça da senhora minha sogra. Ela caiu, porém ainda lúcida, e gritando algo parecido com "CREIDEUSPAI", foi quando eu dei uma senhora joelhada um pouco abaixo da fuça dela, sem deixar que ela terminasse seja lá a frase que fosse (obrigado Anderson Silva). E então ela caiu de uma forma mais caída que da primeira vez, daquelas que você olha e pensa: "nossa, mas dessa vez ela caiu feito uma jaca", e não se esperneou, levantou, gritou, falou, respirou. Estaria minha sogra morta? Ou melhor, teria sido minha sogra morta por MIM? Subiu uma onda de desespero + emoção inexplicável, e fiquei ali, perplexo, não sabia se deveria me sentir aliviado ou preocupadíssimo. Não tive nem tempo de escolher entre uma das opções pois ouvi um barulho familiar de carro entrando no sítio, o caseiro e minha namorada haviam retornado. E eu ali, com as calças no tornozelo, uma velha com a fuça sangrando aos meus pés, e uma cabra assustadíssima acompanhando aquilo tudo. Eis que decidi que era hora de usar tudo que havia aprendido com Dexter até então.


Continua...

quarta-feira, outubro 12, 2011

Meu Herói Alfredo

Sim, eu estou um pouco envergonhado por estar cerca de 20 dias sem postar nada por aqui. Só não estou muito porque eu não recebo pra isso, e tambem porque eu estive me mudando de casa, estou sem internet, e vários outros fatores que são ótimas desculpas pra falta de atividade neste blog. 
Pois bem, como eu estou sem internet eu estava organizando meu pc, as pastas e tudo mais, e fazendo isso eu encontrei algumas coisas que eu desconhecia a existência. Uma destas coisas é um texto idiota que eu vou colocar abaixo, que eu achei perdido numa pasta num cantinho insignificante dentro de outra pasta insignificante. Nem sei quando eu o escrevi, nem por quê, talvez eu estava sem internet na época. É uma história linda e profunda de um herói chamado Alfredo, que mesmo não salvando nada na história salvou meu blog não deixando que ele ficasse mais um dia sem post. Obrigado Alfredo.


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Alfredo estava cansado, da vida, da sua casa, sua família, seus amigos, do alto preço dos salgadinhos.  Já havia passado da idade mas ainda estava bem longe de ser velho, o que ele queria mesmo era um rumo pra sua vida, e já estava na idade pra isso. Lá estava ele deitado no sofá, lambendo seu dedo mínimo esquerdo, o da mão, tentando aproveitar ao máximo o sabor do último doritos da compra do mês. Ele só usava a mão esquerda pra comer doritos pois com a direita ele tinha que pegar o controle remoto pra trocar de canal a todo momento.
Eis que finalmente Alfredo deixou em um canal por mais de 30 segundos, passava um filme onde havia um herói, daqueles que parecem reais, que não voam nem nada, apenas se fantasiam e saem por aí. Alfredo achou interessante, mas trocou de canal novamente. No próximo canal apareceu um noticiário, mendigos foram atacados num bairro próximo ao dele, bem, isso acontece todos os dias, ele pensou. Próximo canal, rapazes sendo presos por estupro, próximo, torcida do Corinthians atacando um ônibus, próximo, câmera flagra ladrão entrando em mercado e roubando 20 pacotes de doritos, aquilo foi demais pra ele.

Alfredo teve um choque de consciência, seu sangue subiu, seu coração disparou, suas pupilas se dilataram, ele nunca havia sentido aquilo antes, ele decidiu o que queria ser da vida. Naquela hora, naquele instante, tudo fez sentido.
"Serei um super herói das ruas, farei justiça com minhas próprias mãos! Serei reconhecido, respeitado, famoso! É isso porra!! Vou salvar velhinhas, adolescentes, gatinhos, mendigos! Que se dane tudo! Vou ser herói!"

Alfredo correu pro guarda-roupa, pegou uma calça estilo Rambo, uma bota estilo Rambo, uma camiseta estilo Rambo, uma máscara estilo Zorro e uma faixa estilo Rambo. Estava pronto.
Amarrou a faixa em sua testa e deu dois nós, vestiu a camiseta apertada e depois as calças, botou o pé direito em cima da cama pra amarrar os cadarços. Juntou, deu nó, passou, voltou, cruzou, puxou. Alfredo se lembrou que ainda não sabia amarrar os cadarços.

Alfredo levou um choque na consciência, seu sangue desceu, seu coração desacelerou, suas pupilas se contraíram, naquele instante ele percebeu que com aquela idade ainda não sabia amarrar os sapatos. Tirou a camiseta, a calça, a faixa, e as jogou em cima da cama. Voltou pro sofá, pegou o controle remoto, e ficou muito feliz pois havia acabado de começar o show do The Killers na MTV. A única coisa que faltava era um pacote de Doritos.